Um novo objecto de estudo: a Lisboa pré-terramoto em mundo virtual

(ūüďĄtext in Portuguese only)

Quando um conjunto urbano já não existe, nem sequer em ruínas, ou está profundamente alterado, as possibilidades de o conhecer na sua dimensão global histórica e material encontram-se fortemente comprometidas. A realidade virtual possibilita recriar esse objecto de estudo, cruzando as diferentes tipologias de fontes históricas (escritas, iconográficas, arquitectónicas e arqueológicas).
Cidade e Espect√°culo: uma vis√£o da Lisboa pr√©-terramoto √© um projecto cient√≠fico que pretende recriar virtualmente, utilizando a tecnologia de mundos virtuais Second Life, a mem√≥ria da cidade destru√≠da pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. A ser desenvolvido no Centro de Hist√≥ria da Arte e Investiga√ß√£o Art√≠stica (CHAIA) da Universidade de √Čvora desde 2008, o projecto conta ainda com as parcerias da empresa Beta Technologies e do King‚Äôs Visualization Lab – King‚Äôs College London.
A Lisboa anterior ao Terramoto desapareceu quase completamente ap√≥s a cat√°strofe e a reconstru√ß√£o promovida pelo futuro Marqu√™s de Pombal, ministro do rei D. Jos√© I, e da qual resultou uma cidade de tra√ßado regular, em quarteir√Ķes uniformes. Da Lisboa barroca ficou a mem√≥ria de uma cidade m√≠tica, descrita pela literatura de viagens como uma combina√ß√£o singular de extrema mis√©ria, grande devo√ß√£o religiosa e desmedida opul√™ncia. O primeiro objectivo deste projecto √©, precisamente, resgatar a realidade urbana absorvida pela mem√≥ria m√≠tica atrav√©s de uma visualiza√ß√£o digital e interactiva, menos abstracta que o discurso narrativo e n√£o condicionada a um √ļnico ponto de vista ou somente √† percep√ß√£o visual, como sucede com o formato bidimensional dos registos iconogr√°ficos ou tridimensional das maquetas convencionais.
A realidade urbana a recriar abranger√° o desenho urbano, o tecido arquitect√≥nico do conjunto desaparecido e os interiores de alguns edif√≠cios de refer√™ncia, tais como o Pal√°cio Real, a Patriarcal, a √ďpera do Tejo, o Convento de Corpus Christi e o Hospital de Todos-os-Santos. Incluir√° ainda componentes √°udio e de anima√ß√£o, com a introdu√ß√£o de sons do ambiente citadino Setecentista, bem como com a reconstitui√ß√£o de espect√°culos de √≥pera, touradas, prociss√Ķes e outros eventos de destaque no quotidiano da Lisboa da primeira metade do s√©culo XVIII. Todos estes elementos ser√£o complementados por caixas de texto de contextualiza√ß√£o hist√≥rica. Na fase actual, foi recriado o exterior do conjunto palatino, que inclu√≠ o Pal√°cio Real, Rua da Capela, Torre do Rel√≥gio, Pra√ßa da Patriarcal e Real √ďpera do Tejo, bem como o P√°tio das Arcas, como se pode verificar em http://lisbon-pre-1755-earthquake.org/.
A tecnologia Second Life permite ultrapassar os condicionalismos da utiliza√ß√£o das ferramentas tradicionais da modela√ß√£o em 3D, ainda presas √† contempla√ß√£o de objectos em ambientes n√£o imersivos, tornando poss√≠vel que qualquer pessoa visite a Lisboa pr√©-terramoto a partir de sua casa, imergindo e interagindo virtualmente no contexto f√≠sico, social e cultural da cidade, e inclusivamente partilhando essa experi√™ncia com outros utilizadores, ganhando-se deste modo igualmente uma dimens√£o social. As potencialidades did√°cticas da aplica√ß√£o desta tecnologia √† recria√ß√£o de uma cidade hist√≥rica desaparecida s√£o assim in√ļmeras. A estas h√° a acrescentar as de ordem cient√≠fica de ineg√°vel impacto no futuro da pesquisa hist√≥rica. A tecnologia Second Life converte a recria√ß√£o virtual em algo mais que uma sofisticada maqueta interactiva de alta defini√ß√£o: confere a dimens√£o laboratorial poss√≠vel, mas urgente, √† investiga√ß√£o nas √°reas da hist√≥ria urbana e da arquitectura ao suportar, a baixo custo e em tempo real, a experimenta√ß√£o das conclus√Ķes retiradas da an√°lise e da interpreta√ß√£o das fontes documentais e iconogr√°ficas para o estudo da cidade, cuja validade pode ser assim debatida e verificada.
Inicia-se, deste modo, uma nova e inovadora metodologia de investiga√ß√£o em que a recria√ß√£o n√£o surge como a sua etapa final, enquanto s√≠ntese ilustrativa dos resultados obtidos pelo processo tradicional, baseado na descri√ß√£o documental, na representa√ß√£o iconogr√°fica e na interpreta√ß√£o arqueol√≥gica, mas √© o principal instrumento de an√°lise do nosso objecto de estudo: a Lisboa desaparecida depois de 1 de Novembro de 1755. Mas como pode uma recria√ß√£o virtual ser um instrumento de an√°lise? Testando a informa√ß√£o retirada das fontes documentais, iconogr√°ficas e arqueol√≥gicas numa dimens√£o virtual que recrie a implanta√ß√£o urbana, a escala, a disposi√ß√£o e o desenho interior e exterior dos edif√≠cios desaparecidos, a realidade ambiental, espacial e paisag√≠stica do constru√≠do. Isto √©, verificando, por exemplo, a possibilidade em termos de espa√ßo urbano dos corpos de um determinado conjunto edificado se articularem de acordo com o que √© descrito ou representado na documenta√ß√£o, ou a exequibilidade arquitect√≥nica da estrutura interna de um edif√≠cio, assim como da configura√ß√£o da sua fachada. Atrav√©s da tecnologia Second Life √© poss√≠vel propor uma recria√ß√£o, debat√™-la e actualiz√°-la em tempo √ļtil e a baixo custo, promovendo-se directa e simultaneamente as dimens√Ķes cient√≠fica, did√°ctica e l√ļdica e correlativamente a ampla divulga√ß√£o do projecto.

APHA, newsletter n¬ļ 5 (Abril, 2011)

3 thoughts on “Um novo objecto de estudo: a Lisboa pr√©-terramoto em mundo virtual

  1. Caros Senhores,

    Cumprimentos por este trabalho, mas… pergunto:
    Este lindo e instrutivo website é destinado ao mundo lusófono ou ao mundo anglófono? A nenhum, suponho, pois da maneira como está redigido, poucas pessoas poderão tirar dele o melhor proveito.
    Considerando os milh√Ķes de lus√≥fonos e de angl√≥fonos no mundo, s√£o poucas as pessoas que podem ler em Portugu√™s e Ingl√™s.
    E pergunto mais: o que impediu a devida tradução, na sua totalidade?

    Com os melhores cumprimentos,

    Elisa Campos

    • Obrigada Elisa pelo seu coment√°rio. Quanto ao fato do site n√£o ser ainda completamente bilingue, tamb√©m n√≥s lamentamos. Mas a verba diminuta com que temos contado para este projeto, que tem implicado um trabalho dedicado da equipa de puro “amor √† camisola”, n√£o nos tem permitido traduzir todos os artigos dispon√≠veis. Mas √© um objetivo para breve!

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