Lisboa 31 de Outubro de 1755: o museu da cidade imaginária

Artigo apresentado no seminário THE CITY AS A VIRTUAL MUSEUM RECONSTRUCTING THE PAST TO LIVE IN THE PRESENT, V-Must, Network of Excellence (7FP) – Spanish Society of Virtual Archaeology (SEAV), ISCTE – IUL – Escola de Sociologia e Politicas Publicas

21-22 Fevereiro de 2014

Reconstrução da cidade de Lisboa antes do terramoto de 1755 utilizando tecnologias de mundos virtuais, uma iniciativa desafiadora e inovadora para a investigação científica e a educação.

Autores:

  • Helena Murteira
  • Paulo Simões Rodrigues

Um novo objecto de estudo: a Lisboa pré-terramoto em mundo virtual

(📄text in Portuguese only)

Quando um conjunto urbano já não existe, nem sequer em ruínas, ou está profundamente alterado, as possibilidades de o conhecer na sua dimensão global histórica e material encontram-se fortemente comprometidas. A realidade virtual possibilita recriar esse objecto de estudo, cruzando as diferentes tipologias de fontes históricas (escritas, iconográficas, arquitectónicas e arqueológicas).
Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa pré-terramoto é um projecto científico que pretende recriar virtualmente, utilizando a tecnologia de mundos virtuais Second Life, a memória da cidade destruída pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. A ser desenvolvido no Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA) da Universidade de Évora desde 2008, o projecto conta ainda com as parcerias da empresa Beta Technologies e do King’s Visualization Lab – King’s College London.
A Lisboa anterior ao Terramoto desapareceu quase completamente após a catástrofe e a reconstrução promovida pelo futuro Marquês de Pombal, ministro do rei D. José I, e da qual resultou uma cidade de traçado regular, em quarteirões uniformes. Da Lisboa barroca ficou a memória de uma cidade mítica, descrita pela literatura de viagens como uma combinação singular de extrema miséria, grande devoção religiosa e desmedida opulência. O primeiro objectivo deste projecto é, precisamente, resgatar a realidade urbana absorvida pela memória mítica através de uma visualização digital e interactiva, menos abstracta que o discurso narrativo e não condicionada a um único ponto de vista ou somente à percepção visual, como sucede com o formato bidimensional dos registos iconográficos ou tridimensional das maquetas convencionais.
A realidade urbana a recriar abrangerá o desenho urbano, o tecido arquitectónico do conjunto desaparecido e os interiores de alguns edifícios de referência, tais como o Palácio Real, a Patriarcal, a Ópera do Tejo, o Convento de Corpus Christi e o Hospital de Todos-os-Santos. Incluirá ainda componentes áudio e de animação, com a introdução de sons do ambiente citadino Setecentista, bem como com a reconstituição de espectáculos de ópera, touradas, procissões e outros eventos de destaque no quotidiano da Lisboa da primeira metade do século XVIII. Todos estes elementos serão complementados por caixas de texto de contextualização histórica. Na fase actual, foi recriado o exterior do conjunto palatino, que incluí o Palácio Real, Rua da Capela, Torre do Relógio, Praça da Patriarcal e Real Ópera do Tejo, bem como o Pátio das Arcas, como se pode verificar em http://lisbon-pre-1755-earthquake.org/.
A tecnologia Second Life permite ultrapassar os condicionalismos da utilização das ferramentas tradicionais da modelação em 3D, ainda presas à contemplação de objectos em ambientes não imersivos, tornando possível que qualquer pessoa visite a Lisboa pré-terramoto a partir de sua casa, imergindo e interagindo virtualmente no contexto físico, social e cultural da cidade, e inclusivamente partilhando essa experiência com outros utilizadores, ganhando-se deste modo igualmente uma dimensão social. As potencialidades didácticas da aplicação desta tecnologia à recriação de uma cidade histórica desaparecida são assim inúmeras. A estas há a acrescentar as de ordem científica de inegável impacto no futuro da pesquisa histórica. A tecnologia Second Life converte a recriação virtual em algo mais que uma sofisticada maqueta interactiva de alta definição: confere a dimensão laboratorial possível, mas urgente, à investigação nas áreas da história urbana e da arquitectura ao suportar, a baixo custo e em tempo real, a experimentação das conclusões retiradas da análise e da interpretação das fontes documentais e iconográficas para o estudo da cidade, cuja validade pode ser assim debatida e verificada.
Inicia-se, deste modo, uma nova e inovadora metodologia de investigação em que a recriação não surge como a sua etapa final, enquanto síntese ilustrativa dos resultados obtidos pelo processo tradicional, baseado na descrição documental, na representação iconográfica e na interpretação arqueológica, mas é o principal instrumento de análise do nosso objecto de estudo: a Lisboa desaparecida depois de 1 de Novembro de 1755. Mas como pode uma recriação virtual ser um instrumento de análise? Testando a informação retirada das fontes documentais, iconográficas e arqueológicas numa dimensão virtual que recrie a implantação urbana, a escala, a disposição e o desenho interior e exterior dos edifícios desaparecidos, a realidade ambiental, espacial e paisagística do construído. Isto é, verificando, por exemplo, a possibilidade em termos de espaço urbano dos corpos de um determinado conjunto edificado se articularem de acordo com o que é descrito ou representado na documentação, ou a exequibilidade arquitectónica da estrutura interna de um edifício, assim como da configuração da sua fachada. Através da tecnologia Second Life é possível propor uma recriação, debatê-la e actualizá-la em tempo útil e a baixo custo, promovendo-se directa e simultaneamente as dimensões científica, didáctica e lúdica e correlativamente a ampla divulgação do projecto.

APHA, newsletter nº 5 (Abril, 2011)